As cores da violência de gênero – As negras ainda são as maiores vítimas

Publicado em 10/10/2016


"Empoderamento consiste em devolver poder para todo um grupo minoritário e isso envolve todas as mulheres negras, da faxineira à consulesa da França, da moradora de rua à médica", explica Nayara Garófalo. (Foto: Raphael Calixto).

 

Para falar sobre as especificidades da violência sofrida pelas mulheres negras, a importância do empoderamento e da inserção destas mulheres no combate a estas violências, o CRESS-MG convidou Nayara Garófalo, presidenta da Associação de Blocos Afros de Minas Gerais (Abafro-MG) e cofundadora do Bloco Afro Angola Janga (BH), conselheira Municipal do Conselho Municipal de Políticas de Igualdade Racial (COMPIR) de Belo Horizonte, além de ser militante do Movimento Negro e Feminismo Negro, editora do TW: Preta! e integrante do Clube de Blogueiras Negras de Belo Horizonte. 

1)   Qual a importância de fazer o recorte racial ao falar de violência contra as mulheres?

Quando falamos do machismo, estamos tratando de um conjunto de pensamentos e práticas da nossa sociedade que colocam o homem como um ser superior em relação às mulheres, diminuindo-as, subjugando-as e objetificando-as. Nesse sentido, é essencial pensar que se isso ocorre com mulheres brancas, o efeito disso em mulheres negras é consideravelmente mais devastador se pararmos para analisar que as mulheres negras foram sequestradas para o país como objetos, seres menores, mercadorias. Se há que se lutar, ainda hoje, pela igualdade de homens e mulheres, é necessário refletir o quanto esta igualdade está ainda distante das mulheres negras, que ainda lutam para serem consideradas iguais às outras mulheres, as brancas.

Se as mulheres brancas são maltratadas e, por machismo, ainda são consideradas frágeis, princesas, criaturas a serem defendidas, há que se refletir qual é o tratamento dispensado para mulheres que foram consideradas menos que animais. No Brasil, no período escravocrata, existiam leis para punir os maus tratos a animais, mas o trato aos negros escravizados era legalmente livre para o entendimento de seus donos. Essa mentalidade sobrevive dolorosamente na nossa sociedade, uma das poucas que ainda considera natural a presença da função de empregada doméstica, geralmente mulher negra, e que se refere a ela como posse: “minha empregada”, “a empregada lá de casa”.

A página “Eu, empregada doméstica” compila relatos de mulheres que trabalham nessa função e as histórias são assustadoramente parecidas com os relatos de tempos de escravidão e, um ponto a se pensar sobre tudo isso, é o fato de que essas mulheres são maltratadas pelas suas patroas, mulheres brancas. Ora, se ainda as mulheres negras não estão em situação de equidade nem com outras mulheres, o que vamos dizer em relação aos homens?

Para uma população que ainda hoje é considerada menor, para uma mulher que ainda vê na televisão aberta a venda de seus corpos como “mulata exportação” em concursos de Globeleza, por exemplo, que conta com a consultoria de “mulatólogos” (perceba a animalização que o termo carrega), a violência de gênero é considerada mais passável e mais plausível, o que nos coloca em uma situação de risco e abuso constantes. Para se afirmar que se procura uma sociedade mais igualitária, é indispensável, portanto, que o exercício do recorte seja feito diariamente por todos nós, em todas as áreas que atuamos.

2)  As mulheres negras sofrem, essencialmente, duas opressões diferentes: a de gênero e a de raça. Existem outras formas de violência que são mais comuns às negras em relação às mulheres não negras?

Considerando o contexto histórico da situação do negro no mundo, mulheres negras são mais propensas a sofrer diversos tipos de violência. As mulheres negras estão propensas a sofrer, no mínimo, dois tipos de opressão: o racismo e o machismo. De acordo com particularidades dessa mulher, ela pode vir a sofrer outras (por exemplo, lesbofobia, bifobia, transfobia, gordofobia, classicismo, etc).

Um dado do Mapa da Violência 2015, produzido pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais e com apoio da ONU, nos dá um indicativo relevante desta realidade. Em 2015, constatou-se a queda de 11,9% na taxa de homicídios de mulheres brancas. No mesmo ano, a taxa de homicídios de mulheres negras cresceu 19,5%. Então, nota-se, entre várias possibilidades, que o cuidado com as mulheres não é equivalente para todas as raças.

Mulheres negras são consideradas “fortes”, “guerreiras”. Isso nos leva a um problema grave: várias pesquisas já demonstraram que mulheres negras recebem menos anestesia do que mulheres brancas, incluindo no parto. Elas também tendem a receber tratamento médico menos cuidadoso e a preocupação médica com a dor que elas sentem é diferente do cuidado dispensado ao resto da população. Há pouquíssimo tempo histórico, mulheres negras foram usadas como cobaias vivas de cirurgias.

A mulher negra é estatisticamente propensa a sofrer violências em todas as áreas da sua vida, do seu próprio nascimento, ao parto de seus filhos, passando pelos seus relacionamentos e suas relações de trabalho. Nas estatísticas, a mulher negra está em primeiro lugar no número de vítimas de estupros, de homicídios, de agressões, de má remuneração, de trabalhos informais, de assédio sexual, de negação de paternidade de filhos, de criação solo de filhos, de mortalidade, entre tantos outros aspectos. É inevitável, portanto, fazer o recorte de raça ao tratar de assuntos relacionados à igualdade.

3)  Você é fundadora do Angola Janga, um bloco carnavalesco que tem como viés o resgate da cultura negra, com uma grande participação feminina, além de integrar o Clube de Blogueiras Negras de Belo Horizonte, que atualmente reúne 10 escritoras. Qual a importância do empoderamento no movimento negro e como ele pode contribuir no combate à violência contra a mulher?

O Bloco Afro Angola Janga é um bloco cuja maioria é feminina. Não somente no número de integrantes, mas também em relação ao público. Para o Angola Janga, valorizamos as mulheres em todas as áreas que temos possibilidade, colocando-as em papel de liderança (quase todas as regentes são mulheres, todas as cantoras são mulheres, etc.), incentivando e instrumentalizando as afroempreendedoras, combatendo o machismo (e outras opressões) de forma consistente dentro do grupo, através da conscientização das mulheres, mas também dos homens, além do incentivo e do cuidado com a autoestima por meio de diversas estratégias. Só permanecem conosco pessoas (e, especialmente, homens) dispostas a descontruir preconceitos e a rever privilégios.

O Angola Janga tenta, de forma estratégica, romper padrões de gênero e raça com atitudes diárias e constantes. Um exemplo disso é nossa rainha de bateria, Cristal Lopez, que é mulher trans negra. Ao colocar uma mulher trans negra como um referencial de feminino (que é o que representa a rainha de bateria), o Angola acaba inserindo na pauta muitas questões a serem pensadas e discutidas não somente pelos integrantes, mas por toda a sociedade.

Já o Clube das Blogueiras Negras de BH é uma iniciativa valorosa de Lívia Teodoro, que reúne mulheres negras produtoras de conteúdo com recorte de gênero e raça. Dentro de cada plataforma, cada blogueira trabalha o empoderamento da mulher negra por um ou mais aspectos diferentes (estético, financeiro, cultural, entre outros). 

Na minha concepção, um dos vários elementos que esses projetos têm em comum é que nosso entendimento de empoderamento, uma palavra tão falada atualmente, não se resume à estética (embora, sem dúvida alguma, essa questão seja bastante relevante), mas antes, que empoderamento consiste em devolver poder para todo um grupo minoritário e isso envolve todas as mulheres negras, da faxineira à consulesa da França, da moradora de rua à médica.  Devolver poder que nos foi tomado exige uma atuação estratégica, ampla e multidisciplinar: financeiramente, socialmente, esteticamente, culturalmente, profissionalmente, afetivamente, entre muitos outros.

Quando uma mulher negra está em processo de empoderamento (que, no meu entender, nunca é completado, uma vez que estamos sendo diariamente massacradas pelas opressões que sofremos), ela se torna mais forte e mais apta para se proteger e proteger as outras. Instrumentalizada e informada, ela é capaz de aplicar na sua própria vida estratégias de proteção e de replicar essas estratégias para mulheres de seu convívio. E quando um grupo minoritário, que sofre mais opressão, quebra este ciclo, é indicador que os grupos majoritários também já estão mais avançados.

4)   As eleições municipais, em todo o país, têm apontado para o avanço de ideologias conservadoras. Ao mesmo tempo, temos o caso de mulheres negras sendo eleitas como vereadoras em Minas, Rio e São Paulo. O que este cenário diz a respeito da luta pelos direitos das mulheres?

Na minha concepção, este cenário indica que populações minoritárias estão cada vez mais conscientes, o que não significa que o sistema de poder esteja. Costumo dizer que o sistema político que vivemos (em todos os 3 poderes) é branco, cristão e homem. As leis são brancas e masculinas, os governos são brancos e masculinos, a polícia é branca e masculina. Ainda que existam negros atuando nesses campos, são ainda minoria dentro de um sistema que tende a engolir seus avanços porque ele é todo criado para manter a sociedade em que vivemos. E que sociedade é esta? Branca, cristã e masculina.

É necessário considerar que enquanto as mulheres brancas lutaram, na chamada primeira onda do feminismo, pelo voto universal, este universal significava apenas “homens brancos e mulheres brancas”. No Brasil, negros só passaram a votar em 1934. Para deixar bem demarcado, existem apenas 82 anos em que os negros podem votar no nosso país e não há como se falar de participação política sem lembrar muito bem desse fato histórico. Aqui em Belo Horizonte, uma sociedade conhecidamente tradicional, tivemos uma vitória expressiva de uma mulher negra que levantou essa bandeira. Tivemos também um número expressivo de candidaturas negras lutando por essa causa abertamente (Cristal Lopez, por exemplo, foi candidata à vereadora).

A eleição dessas representações mostra uma conscientização que, ainda que extremamente animadora pelo nosso contexto histórico, por outro lado demonstra o longo caminho que ainda falta percorrer. Dentro de uma Câmara Municipal com 41 cadeiras, um ou dois vereadores negros que lutam por essa causa de maneira aberta são, ainda, minoria. Uma mulher negra, então, é minoria assustadora. Se levarmos isso ao plano do Brasil, percebemos então que ainda temos um percurso gigantesco para percorrer, considerando que, após a saída de Dilma, o primeiro ministério a ser extinto foi justamente o Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos. Isso, ao meu ver, ilustra perfeitamente a realidade dura em que vivemos e o caminho que, pouco a pouco, mulheres negras estão desbravando, seguindo o caminho aberto por tantas outras que vieram antes de nós.

Veja aqui outros conteúdos feitos pelo CRESS-MG para o Dia Nacional de Luta pelo Fim da Violência à Mulher.

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