Sororidade – A essência e limite do conceito de solidariedade entre as mulheres

Publicado em 06/03/2015

A sororidade é a ideia de que juntas as mulheres são mais fortes. No contexto do feminismo, a sororidade se trata da solidariedade feminista no combate à rivalidade e à competição pregadas pelo machismo.

Na Semana das Mulheres, o CRESS-MG propõe convidou a assistente social Isabela Costa, mestre em Serviço Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora, professora substituta da Faculdade de Serviço Social da mesma instituição e militante do Coletivo Terra Roxa e da Marcha Mundial das Mulheres, para tratar sobre alguns pontos do movimento feminista – em especial, o conceito e os limites da sororidade -, e sua interface com o Serviço Social.

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Vivemos em uma sociedade machista e patriarcal. Como isso determina o ódio e o revanchismo entre as próprias mulheres?

Exatamente, a sociedade em que vivemos é machista e patriarcal. Assim, a ideologia dominante também é machista e patriarcal. Isso significa que as relações de dominação de um sexo sobre o outro estão presentes em todos os âmbitos da vida social. Estas relações estão arraigadas em nossa formação social, influenciando também a construção dos indivíduos, que desde a infância são ensinados a reproduzir formas de ser e de pensar sexistas, ou seja, que conferem privilégios a um sexo (homens) em detrimento da subordinação do outro (mulheres).

Nesse sentido, apesar de se tratar de um fenômeno estrutural (patriarcado), o machismo tem como agente opressor preferencial os homens, que por várias determinações – sociais, culturais, econômicas e políticas – ainda gozam de certo poder sobre as mulheres. Basta vermos os números alarmantes de violência contra a mulher praticada por homens em suas várias formas: psicológica; física; sexual; dentre outras. É importante ressaltar que as mulheres têm resistido historicamente a todos esses processos, elas não estão passivas.

“O machismo, enquanto ideologia já enraizada no imaginário social não precisa da presença de um homem para ser disseminado. Vemos a discriminação de gênero ser reproduzida  por diversos sujeitos sociais, inclusive pelas próprias mulheres”

Por outro lado, o machismo, enquanto ideologia já enraizada no imaginário social não precisa da presença de um homem para ser disseminado. Essa é uma face cruel desse processo, pois vemos a discriminação de gênero ser reproduzida  por diversos sujeitos sociais, inclusive pelas próprias mulheres.

Apesar disso, não podemos culpabilizá-las individualmente, pois como eu disse, trata-se de um fenômeno social. O que precisamos é modificar as formas de ser e de pensar da sociedade em favor da equidade entre os sexos e de outras transformações extremamente necessárias e que vão além disso.

É triste quando alguém diz que “é machista porque a mãe o criou assim” ou “as mulheres são mais machistas que os homens”, para desqualificar a atuação do movimento feminista. Isso é muito simplista e fica totalmente na aparência do fenômeno. As mulheres, sem dúvida, são as maiores interessadas no rompimento com essa lógica patriarcal, estejam cientes disso ou não. Cada uma tem seu processo de consciência em relação ao feminismo.

Quais as principais consequências sociais dessas relações de competitividade entre as mulheres?

A principal consequência é que, na medida em que estamos envolvidas em algum tipo de disputa fomentada pelo machismo, nós não nos identificamos enquanto um sujeito coletivo. Isso nos fragiliza e nos enfraquece enquanto sexo, tanto no nosso cotidiano e vida pessoal, quanto na luta feminista de uma forma mais ampla.

Já somos atacadas de diversas formas pelo machismo e pela misoginia nos mais diversos espaços da sociedade. Quanto mais divididas estivermos, mais difícil será fazer frente à violência sexista, avançar na conquista de mais direitos, espaços de poder e autonomia sobre nossas vidas e corpos; dentre várias outras questões para as quais o movimento feminista nos chama a atenção.

Do que se trata a sororidade e qual sua importância na luta pelos direitos feministas?

Existe uma frase usada movimento feminista que eu gosto muito, que é “mexeu com uma, mexeu com todas”. Acredito que sororidade seja isso. É entender que nós mulheres sofremos discriminações e violências que são determinadas nessa sociedade pelo nosso sexo (algo que não é só um dado biológico, mas também construção social, histórica e cultural). Diante disso, temos que nos solidarizarmos umas com as outras e nos unirmos para fazer frente ao machismo de forma coletiva.

A expressão máxima desse processo é o movimento feminista, essencial para avançarmos na conquista dos direitos femininos. Ele não é coisa do passado, como muitos pensam… Enquanto houver machismo, o feminismo será imprescindível.

É importante destacar que não queremos criar dicotomias ou “guerra dos sexos”, como muitos nos acusam. Temos consciência de que as relações entre os sexos são relações conflitantes, mas isso não quer dizer de forma nenhuma que acreditamos que os homens sejam o centro do problema. Eles, inclusive, podem ser aliados da luta feminista, apesar de o protagonismo das mulheres ser um princípio do qual não abrimos mão.

Quais os limites do conceito de sororidade, visto que ele pode ocultar, no movimento feminista, questões de classe, cor e mesmo de identidade de gênero?

Acredito que esse conceito tem seu limite, já que um sentimento indiscriminado de solidariedade entre as mulheres não é suficiente para mudar a realidade. Ao analisarmos a sociedade de uma forma mais ampla vemos que várias instituições são responsáveis por reproduzir a ideologia dominante, dentre elas o Estado, as escolas, as religiões, as famílias, as empresas etc. Estamos falando de espaços de poder, que são usados como ferramentas para exploração e dominação da classe trabalhadora em toda sua heterogeneidade, inclusive das mulheres.

Portanto, não podemos nos furtar de compreender as diversas formas de opressão presentes nessa sociedade, determinadas por sexo, classe, raça/etnia, identidade de gênero, orientação sexual e geração dos sujeitos. O movimento feminista deve, inclusive, se debruçar para compreender como essas outras determinações se relacionam com a questão do sexo. Sem isso nossa atuação será limitada, até porque a diversidade é algo presente no movimento. É tarefa do feminismo se preocupar não só com a questão das mulheres, mas buscar contribuir com a emancipação de todos os sujeitos que possuem uma condição subalterna.

Temos a consciência de que nós não conseguiremos nos emancipar nessa sociedade capitalista, patriarcal e racista, que só se fortalece cada vez mais com a reprodução dessas formas de opressão.

Portanto, acredito que a luta feminista deve ser antipatriarcal, antirracista e anticapitalista. Isso vai para além de simplesmente mudar as mentalidades, com estratégias como a sororidade, por exemplo. Estamos falando em mudar a sociedade em termos estruturais e não só (mas também) culturais.

Como a sororidade pode contribuir para a atuação profissional em categorias majoritariamente femininas, como é o caso do Serviço Social?

Creio que o primeiro passo seja ter a clareza de que ser uma profissão majoritariamente feminina não é uma simples coincidência, algo que pode ser ignorado pelos(as)  profissionais. É algo construído historicamente. Assim, é preciso compreender como essa marca de gênero perpassa o modo de ser dessa profissão e quais rebatimentos isso tem para a categoria em questão.

Sabemos que essas profissões femininas estão dentre as mais desprestigiadas em termos de status social e remuneração, o que não ocorre por acaso. Além disso, estão ligadas em sua maioria aos trabalhos de cuidado, educação, orientação, assistência aos setores vistos como mais fragilizados da sociedade, atribuições esperadas de nós no espaço da família. Ou seja, o que é determinado socialmente a nós na sociedade patriarcal para o espaço privado, tem sua extensão no espaço público.

No caso do Serviço Social, creio que já estamos avançando em produções acadêmicas e discussões nesse sentido, mas ainda há muito que se desenvolver. Para além da solidariedade feminista, diria que é fundamental o desenvolvimento de uma consciência feminista entre as assistentes sociais.

Destaco, assim, a importância de nossa articulação enquanto categoria com o movimento feminista. Creio que só temos a ganhar. Isso pode contribuir para conseguirmos romper com a nossa herança conservadora, que perpassa também pelo machismo, negando na intervenção profissional posturas discriminatórias e garantindo o direcionamento presente em nosso projeto ético-político, a favor da  “construção de uma nova ordem societária, sem dominação, exploração de classe, etnia e gênero” (CFESS, 1993). Além disso, podemos nos fortalecer na luta pela legitimação e valorização da profissão, demarcando nosso lugar na sociedade e nos diversos espaços sócio-ocupacionais em que estamos inseridos. 

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