Questão de gênero no Serviço Social é abordada por prof.ª em entrevista ao CRESS-MG

Publicado em 07/03/2014

A presença de mulheres no Serviço Social tem definido o perfil da profissão e, consequemente, trazido para seu interior, os conflitos promovidos pelo machismo na sociedade. Além disso, há o fato de que o público-alvo do Serviço Social são, em sua maioria, mulheres, o que torna urgente e necessário o debate da questão de gênero entre os assistentes sociais. 

Na semana em que se comemora o Dia Internacional da Mulher (8/3), o CRESS-MG entrevistou a assistente social e prof.ª da UFRN, Mirla Cisne, que recentemente lançou o livro “Gênero, divisão sexual do trabalho e Serviço Social” Editora Outras Expressões (2012)

 

1. Que relação pode se estabelecer entre a histórica opressão às mulheres e a acumulação capitalista?

Minha compreensão acerca desta relação é baseada na perspectiva marxista, portanto, de um feminismo materialista. O patriarcado, entendido como sistema de dominação e exploração das mulheres, é anterior ao capitalismo. Todavia, esse sistema foi incorporado ao capitalismo, assim como o racismo. Isso porque o capitalismo traz em sua lógica organizativa a necessidade da exploração que produz, além da desigualdade econômica, diferentes opressões que a ela são funcionais. Na particularidade das mulheres, especialmente as negras, temos assistido a aceleração das formas mais degradantes da exploração da força de trabalho, cujo universo é o da precarização do emprego e da destituição de direitos.

Além do trabalho doméstico, que ao ser percebido como uma obrigação da mulher ou mesmo um “dom”, não é sequer valorizado como trabalho. Aqui, cabe um destaque importante. A responsabilização da mulher pela reprodução social, entendida na perspectiva feminista como tudo o que é necessário para a garantia da força de trabalho, permite ao capitalismo uma redução significativa no cálculo do valor do salário mínimo.

Senão, façamos as contas. Quanto deveria aumentar o salário mínimo para ser capaz de arcar com todas as despesas de alimentação, lavagem de roupa, cuidados com a casa, crianças, idosos(as), doentes e até mesmo com os membros considerados “válidos” da família? Ou, quanto o Estado capitalista deveria investir em educação em tempo integral, lavanderias públicas, restaurantes comunitários, etc. para a responsabilização com a reprodução social?

Assim, a invisibilidade e naturalização do trabalho procriativo, doméstico e emocional que recai sobre as mulheres, possibilita o menor custo possível com a reprodução da força de trabalho, sem a qual não haveria produção.

2. A maioria dos assistentes sociais hoje são mulheres. Quais implicações disso para o Serviço Social?

Como toda profissão considerada de mulheres, o Serviço Social possui baixo status social e baixo nível salarial. Isso porque a marca de gênero imputada à profissão esta associada à existência da divisão sexual do trabalho que condensa relações hierárquicas – o trabalho masculino sempre é mais valorizado do que o feminino, mesmo no exercício das mesmas atividades laborativas – e a tipificação daquilo que é considerado trabalho masculino e feminino.

Como o Serviço Social se insere não apenas na divisão social, mas, também, na divisão sexual do trabalho, a hierarquia, a carga de preconceitos e a desvalorização que as mulheres sofrem socialmente, refletem diretamente na profissão.  

3. Por que é importante debater a questão de gênero dentro do Serviço Social?

Destaco três motivos principais. O primeiro por sermos uma profissão majoritariamente e historicamente composta por mulheres. Então, para o próprio entendimento da profissão e do perfil profissional, não podemos negligenciar uma das suas dimensões estruturantes: as relações sociais de gênero.

O segundo motivo refere-se à composição do nosso público usuário, que, por sua vez, é também majoritariamente feminino. Público que compõe 70% dos pobres do mundo e que são as responsáveis pela reprodução social. Então, as mulheres são, majoritariamente, o público-alvo da nossa ação profissional nos diferentes espaços sócio-ocupacionais. Não podemos, assim, desconsiderar uma das dimensões estruturantes deste público usuário: sua marca de gênero e todos os desdobramentos que ela implica, como as múltiplas violências que as mulheres sofrem diariamente, suas condições de trabalho e renda, sua função na manutenção da família, sua responsabilidade em manter as diferentes condicionalidades de acesso aos serviços, especialmente os assistenciais, etc.

O terceiro motivo, não menos importante que os demais, é o nosso compromisso ético-político contra todas as formas de desigualdade, discriminação e opressão. Penso que a análise das relações sociais de gênero nos são indispensáveis para não apenas desvelarmos as desigualdades que marcam a vida das mulheres, como também, para não reproduzi-las no cotidiano do exercício profissional.

4. Qual relação do Serviço Social e do feminismo?

O feminismo pode se relacionar diretamente com o Serviço Social, tanto porque a luta pela emancipação das mulheres reflete diretamente no processo de valorização da profissão, ao se contrapor a lógica da divisão sexual do trabalho, como porque contribui com as respostas às demandas do nosso público usuário que, como já apontamos, é majoritariamente feminino.

A incorporação do feminismo e da riqueza das questões que ele desvela acerca do universo da exploração, subalternização e opressão das mulheres contribui fortemente para uma ação profissional baseada nos valores e princípios do nosso projeto ético-político. Assim como nos distancia de práticas, valores e pensamentos conservadores, como o que responsabiliza a mulher pelas diferentes expressões da questão social, perspectiva dominante nas protoformas da profissão, mas que, infelizmente, ainda não eliminamos. 

A atual configuração das políticas sociais compensatórias guarda na matricialidade o seu centro motor.  Com essa perspectiva, há uma responsabilização das mulheres pela manutenção da elegibilidade ao acesso a um programa, como, por exemplo, o Bolsa Família. Também não podemos negligenciar o aumento dos casos de prostituição e violência sexual contra as mulheres em algumas obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Das grandes obras, além do desrespeito com a natureza e com as populações locais, tem sobrado às mulheres a prostituição e a violência sexual, inclusive, com casos de cárcere privado para fins de exploração sexual.

Não tenho dúvida, portanto, da contribuição significativa das questões postas pelo feminismo ao Serviço Social. O feminismo enfrenta diretamente valores conservadores que naturalizam desigualdades sociais e alimentam formas diferenciadas de hierarquia, preconceitos e relações de dominação. Ao buscar, em todas as relações, a radicalização da democracia, a afirmação da igualdade com respeito às diferenças, o feminismo nos instrumentaliza para aquilo que é o seu princípio fundante e norteador, assim como o é para o Serviço Social, o seu valor ético-central: a liberdade.

Nesse sentido, o feminismo pode contribuir significativamente para o movimento constante de renovação do Serviço Social. O convite do feminismo, portanto, é para a ruptura com tudo aquilo que submete, domina, define e limita as possibilidades de ser, sentir e viver em liberdade. O feminismo nos convoca à luta pela emancipação humana!

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