CRESS-MG pela Consciência Negra – Leia a entrevista com militante do movimento negro

Publicado em 21/11/2016

O militante do movimento negro, jornalista e fotógrafo, Raphael Calixto, conversou com o CRESS-MG sobre o atual cenário da militância negra, a sua (des)articulação com outras pautas da esquerda e a importância e nuances de figuras representativas nessa bandeira de luta. A entrevista aconteceu em função do Dia da Consciência Negra, lembrado em 20 novembro.

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1.    Quais são as principais pautas do movimento negro no Brasil de 2016? Como isso se relaciona com realidades como a dos Estados Unidos, que acaba de eleger um candidato ultraconservador e racista para a presidência?

A meu ver, para esse ano e o próximo, as principais pautas discutidas pelos militantes da questão negra no Brasil serão os limites da representatividade, o Mapa da Violência e os seus dados, as relações políticas no país e os seus desdobramentos para a população negra e periférica. É importante que o movimento se articule em torno dessas três pautas porque elas estão ligadas diretamente ao nosso dia-a-dia enquanto cidadãos.

Através da análise dos dados apresentados pelo Mapa da Violência nós poderemos fundamentar as críticas aos governos e exigir políticas de prevenção e assistência nos âmbitos municipal, estadual e federal. Precisamos também estar atentos para a forte tendência de cooptação da pauta da representatividade por movimentos conservadores e setores dos meios de comunicação interessados apenas em lucrar com esse fenômeno ao invés de contribuir para o debate e as transformações sociais.

Diretamente ligado a isso, vemos um grande avanço do conservadorismo na política nacional impulsionado em grande parte pela descrença da população na esquerda. Esquerda essa que, uma vez no poder, esqueceu de suas bases e acabou se comprometendo com alianças escusas. É fundamental que o movimento negro esteja atento à essas dinâmicas políticas para poder cobrar tanto da esquerda quanto da direita mudanças efetivas para a população negra, que compõe a maioria pobre e em situação de risco na nossa sociedade.

Embora pareça, é muito complicado traçar um paralelo entre a realidade norte-americana e à brasileira nas questões raciais. Talvez a principal semelhança seja a política de assassinato e encarceramento em massa da população negra (em especial da juventude). Precisamos levar em conta que os EUA tiveram um processo muito particular de segregação institucionalizada no pós-abolição, coisa que não aconteceu aqui. No entanto, nós temos a nossa própria versão da segregação, que é disfarçada com o mito da democracia racial.

2.    Como tem se dado a articulação do movimento negro com outras agendas da esquerda?

A esquerda brasileira falhou com as questões raciais nos últimos anos. Um exemplo bastante evidente disso são as eleições de candidatos conservadores nos estados do Rio de Janeiro e São Paulo. Outro exemplo foram as reações da imprensa e de algumas pessoas públicas a esses resultados: culparam o povo, disseram que o povo não sabia votar. Ora, se a gente for pensar quem é o "povo" na nossa sociedade, tendo em vista que cerca de 55,5% da população se declara negra e parda (IBGE, 2015), fica óbvio a quem essa crítica da esquerda intelectualizada se dirige. (episódio da capa da revista revista le monde diplomatique)

É impossível ser verdadeiramente de esquerda no nosso país sem colocar a questão racial na centralidade do movimento. Como combater as opressões sem colocar com prioridade os grupos que mais sofrem violações dos seus direitos mais básicos? A esquerda precisa se reorganizar tendo as questões raciais e de gênero como prioridades, principalmente porque no nosso país são as mulheres negras que compõe o grupo de indivíduos que está mais vulnerável social e economicamente.

3. Por que é importante, política e socialmente, que a população afrodescendente, no Brasil, conheça e valorize suas origens e raízes?

Vou levantar alguns pontos para facilitar o entendimento da minha posição:

1º- Uma coisa muito particular da nossa realidade, embora não seja exclusiva, são grupos marginalizados comprando e reproduzindo as ideias dos grupos dominantes. É desse fenômeno que nascem as mulheres que são machistas, os negros que são racistas e os LGBTs preconceituosos, etc.

2º – No caso dos brasileiros descendentes de imigrantes europeus e asiáticos, é muito comum a herança cultural dos antepassados ser preservada e valorizada, inclusive através dos sobrenomes e nomes de família, coisa que não acontece com a população descendente de africanos escravizados porque isso nos foi negado institucionalmente.

E nós, enquanto sociedade, já naturalizamos esses dois fatos. Dentro da nossa formação acadêmica e nos movimentos de esquerda, por exemplo, é muito comum estudarmos e referenciarmos a Comuna de Paris, a Revolução Russa, mas ignorarmos o quilombo de Palmares, que teve mais de 100 anos de existência num período de 300 anos de escravidão no Brasil. Por que os levantes organizados pelos negros desse período não são levados em conta pela nossa esquerda?

4. Tem-se ouvido falar sobre a importância da representatividade nos movimentos feministas, LGBTs e negro. Quais as nuances e a importância desse debate na questão negra?

A representatividade ou representação é uma questão muito importante, porém complexa e precisa ser tratada com muito cuidado. Primeiro porque precisamos reconhecer a imagem violenta e animalizada que foi historicamente criada em cima dos sujeitos negros em nossa sociedade. Isso ajuda a justificar, por exemplo, o genocídio da população negra ao naturalizarmos a morte e a associação desses indivíduos com a violência, ajuda a justificar também a hipersexualização do corpo negro e muitas vezes a falta de afetividade a qual pessoas negras são condenadas, entre outros fenômenos perversos do racismo.

Em segundo lugar existe também o fardo da representação racial que, em linhas gerais, é sobre você ser o único indivíduo negro inserido num espaço majoritariamente branco e as dinâmicas desse cenário. Isso muitas vezes desencadeia uma série de cobranças tanto de um lado quanto de outro, de modo que para os brancos você passa a responder indiretamente por todos os negros (ou por toda a raça) enquanto que para os negros você se torna um símbolo com responsabilidades para com eles. E isso, infelizmente, acontece até mesmo quando esse indivíduo negro não tem qualquer pretensão de ser esse ícone, o que geralmente observamos em pessoas bem-sucedidas em seus trabalhos e celebridades negras. É aquela velha história de que um negro sempre acaba tendo que responder por todos os indivíduos da sua raça, enquanto o mesmo não acontece com as pessoas brancas. Um jovem negro comete um crime e o estigma da violência recaí sobre todos os outros indivíduos negros. Um jovem branco promove um assassinato em massa numa faculdade, por exemplo, mas nem todos os outros jovens brancos passam a serem vistos como assassinos em potencial.

E, por último, precisamos questionar a representatividade como um fim em si mesmo. Por exemplo: representados na mídia, ainda que em baixíssima escala, os negros de uma forma ou de outra sempre estiveram. Porém, e é aí que está o problema, sempre estivemos representados em posições de subalternidade, violência, exotização e negatividade.

Exigir a presença de construções positivas de pessoas negras nos espaços midiáticos é contribuir positivamente para a formação da subjetividade de crianças negras que não se veem de forma positiva em nenhum lugar de visibilidade ou poder. E estamos avançando nesse campo nos últimos anos, mas paradoxalmente ainda somos encarcerados e assassinados em massa pelo Estado.

Por isso, uma representatividade que não é crítica do espaço de poder na qual ela se insere só serve para a manutenção daquele espaço e das barreiras que impedem outras pessoas negras de acessá-lo. Precisamos estar nesses lugares, mas precisamos ir além disso e também mudar esses espaços.

Ter uma ou outra pessoa negra presente nos espaços de poder é uma conquista simbólica e precisa ser reconhecida, mas ela não pode parar por aí porque precisamos criar condições para outras pessoas negras conseguirem ultrapassar essas estruturas.

5.    Quais você acredita serem os caminhos para uma sociedade com menos desigualdade racial?

O racismo na nossa sociedade não está só naquilo que a gente vê, naquilo que choca, nas violências explícitas motivadas pela raça. O racismo está entranhado nas estruturas, sejam elas políticas, institucionais, econômicas e até mesmo do saber.

É importante que o racismo seja desnaturalizado, que a gente fale sobre o porquê a cada 23 minutos um jovem negro é morto vítima de violência e isso não choca as pessoas; sobre por quê a gente já se acostumou a ver pessoas negras representadas na mídia em posições subalternas; sobre por quê pessoas negras que são bem sucedidas são sempre a exceção, etc. Também precisamos discutir o por quê do branco ser a regra;

Já que no Brasil raça informa classe, a luta pelo fim das desigualdades sociais passa necessariamente pela dimensão estrutural do racismo, ou seja, devemos discutir e desconstruir os privilégios historicamente herdados pelas pessoas brancas.

Relembre, aqui, a entrevista concedida, mês passado, pela presidenta da Associação de Blocos Afros de Minas Gerais (Abafro-MG) e conselheira Municipal do Conselho Municipal de Políticas de Igualdade Racial (Compir) de Belo Horizonte, Nayara Garófalo, sobre o recorte racial na questão da violência contra as mulheres.

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